Transtornos mentais e entretenimento: uma crítica à banalização do estigma

Acho que já escrevi sobre isso uma vez, ou então comentei com alguém a respeito. Eu tinha desistido da vida de ativista de saúde mental, não porque não leva a nada, mas porque eu parecia estar sozinho nisso. As pessoas que se juntavam a mim ou só queriam conscientizar as pessoas de doenças com menos estigma (como depressão e ansiedade) ou queriam tentar convencer que, apesar do que a ciência diz, “tudo tem cura” (a maioria dos transtornos mentais não têm). Lembro de uma vez ter escrito no meu defunto Svbtle sobre como há um tipo de sociopatia socialmente aceita na indústria de entretenimento, que é o caso de Hannibal Lecter. Isso foi mais uma reclamação sobre como as pessoas necessitam de personagens que sejam excepcionais e ignoram que uma narrativa pode ser muito bem construída em torno de pessoas ordinárias. Não é disso que eu vou falar hoje.

Eu gostava muito de séries policiais. Muito mesmo. Maratonei oito temporadas de Criminal Minds, oito temporadas de Bones, Castle inteirinha, Luther e sabe-se lá mais o quê. Esse encanto se tornou uma quase repulsa depois de um determinado episódio de Criminal Minds, lá em 2013, e, embora eu tenha acompanhado outras séries policiais depois dessa (Castle, por exemplo), Criminal Minds despertou uma fúria sem tamanho em mim. Mas vamos começar do começo.

Criminal Minds é uma série americana do canal CBS, que tem como premissa um grupo de detetives do FBI que são especializados na área psicológica-comportamental dos crimes, isto é, que fazem perfis de “padrão de comportamentos” para ajudar na investigação. Quando a polícia civil de um lugar não consegue solucionar um crime, geralmente uma série de assassinatos, essa equipe é chamada e a história começa: viagem de avião para lugar X, subplot raso envolvendo algum dos protagonistas, crimes horrendos e um final que só pode acontecer de dois jeitos: prisão do assassino ou a morte dele. Esse é o esqueleto da série, e é assim que ela se sustentou pelos oito anos que eu a acompanhei – ela tem hoje treze ou quatorze temporadas, mas eu não cheguei a ver as outras.

Até aí, tudo bem, toda série precisa de um plot básico, certo? Certo. Assistindo a alguns episódios nós vemos essa fórmula, e vemos também que sempre há outro elemento: a desumanização do assassino e a caracterização dele como um doente mental. Em todos os episódios o grupo de detetives chega a um certo diagnóstico em relação ao criminoso – “ele é um psicopata narcisista”, “ele é um esquizofrênico paranoico”, “ele é borderline com traços de psicose”, etc – e esse diagnóstico magicamente explica a maneira em que ele tortura e mata suas vítimas, porque o anseio de matar tem tudo a ver com a patologia dele. Depois de terem identificado a patologia e a pessoa, os detetives vão atrás do criminoso com uma equipe de SWAT, arromando portas. É aí que vem o final, a “escolha” que eles dão ao criminoso: cadeia, quando encontram o assassino em prantos e com remorso, ou morte quando ele resiste à prisão. A morte é sempre dada de duas formas: ou pelas mãos do detetive principal ou pelas mãos do próprio criminoso. Os assassinatos são sempre em série, e muito bem elaborados: todos são diferentes, têm motivação única e são mirabolantes. Me recordo de um episódio em que um homem fazia “marionetes humanas”, e outro de uma mulher que paralisava outras mulheres e as tratava como “bonecas”.

Acho que agora eu posso chegar ao meu ponto.

Séries como Criminal Minds têm uma coisa muito peculiar, que é usar transtornos mentais para duas coisas distintias: entreter seu público e causar medo nele. Entreter porque existe uma equipe de roteiristas que pensa nesses crimes e os escreve de maneira que fiquem ou assustadores, ou “muito loucos” ou algum outro adjetivo que queira dizer “cativante” – porque a ideia é manter as pessoas assistindo à série, custe o que custar. A audiência é movida por uma “curiosidade mórbida” para ver como o episódio vai terminar, ainda que ele sempre termine da mesma maneira, em todas as séries. Diferente do que se possa falar de, digamos, Black Mirror, Criminal Minds e seus spin-offs não mostram críticas à sociedade, ainda que sejam feitas para deixarem o público desconfortável; elas têm esse esqueleto repetitivo e subplots fracos justamente porque são feitas para entretenimento, para aquele cara que chega em casa do trabalho e quer extravasar de algum jeito que não seja ver o noticiário.

É justamente não ter uma crítica social que faz as séries exploradoras. Elas prometem medo para a audiência, e entregam isso da maneira mais básica que existe: o medo do Outro que não conhecemos; neste caso, o “Outro” é sempre alguém com algum transtorno mental, e esse transtorno mental, invariavelmente, é o que o leva à violência. Isso aliena as pessoas que sofrem de transtornos mentais fora da televisão e contribui para o estigma.

A alienação acontece de dois jeitos: primeiro ao dizer que todas as pessoas que têm algum transtorno mental são violentas, e em segundo lugar, ao tratá-las de maneira desumana com o final que lhes é oferecido. Dizer que só existe “matar ou morrer” para essas pessoas traz um estigma enorme para quem sofre com seu diagnóstico, porque a pessoa consome essa mídia e internaliza: “eu sou uma pessoa má porque tenho uma doença mental”, “ter uma doença mental é o que faz as pessoas matarem, e se eu tenho uma, eu sou violento”, “a única saída que existe para minha doença é a morte”.

Essas séries são feitas para pessoas “normais”, “neurotípicas”(1); para pessoas que não têm histórico de doença mental na família, para pessoas que nunca entraram em contato com isso de verdade. E elas ensinam a essas pessoas que elas devem evitar pessoas com doenças mentais, transformando-as num Outro monstruoso, num Outro que é indesejável e deve ou ser contido ou morto. Tudo, ainda, na intenção de entreter essas pessoas, porque elas nunca imaginariam que na realidade existem pessoas com os transtornos mentais mencionados na televisão. Um caso que eu posso mencionar é o de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT ou PTSD): muitos veteranos de guerra têm este transtorno, e um número alarmante deles tenta suicídio porque se isolam, justamente por conta do estigma. Isso vale para vários outros transtornos, como o borderline, que é socialmente conhecido como o esteriótipo de pessoa violenta e abusiva.

Mas esse não é o problema maior.

O problema maior é as pessoas gostarem disso. O problema maior é as pessoas consumirem tanto desse tipo de mídia que chegam ao nível de não se incomodarem com a desumanização de pessoas que sofrem de transtornos mentais, ou, ainda contribuírem com isso ao criar mais e mais mídias com esse mesmo trope ou pensarem que ele existe apenas como elemento narrativo.

O problema maior é as pessoas banalizarem o estigma contra pessoas com transtornos mentais, pensarem que não existe ninguém que é afetado por isso. Mas existe. E essas pessoas, que já batalham consigo mesmas todos os dias por conta de seus sintomas, precisam levar esse carimbo na testa: “sou um doente mental, sou perigoso”.

O último caso que me fez ficar revoltado com isso foi justamente Black Mirror: Bandersnatch. A rota que eu tracei me deu a impressão de que a doença do Stefan, seja lá qual fosse, estava ali apenas para “apimentar” o filme, para entreter o jogador. Afinal, não basta ele ficar obcecado pelo jogo, ele também precisa ser “louco” e ter a opção de matar alguém. E essa opção de assassinato é a que garante a vitória no filme-jogo, o “final feliz”. Mas ninguém pareceu perceber o quão errado isso é, apenas viram como mais um elemento narrativo, como mais um tempero no filme.

As pessoas deveriam repensar a respeito do que gostam de consumir, especialmente se o que elas consomem banaliza tanto algo tão sério e traz tanto sofrimento a terceiros. Mas, bem, a humanidade não é conhecida por sua empatia...


(1) Eu não gosto dos termos “neurotípico”, “neuroatípico” e “neurodivergente” porque eles parecem alienar mais ainda pessoas que sofrem de transtornos mentais, mas na falta de um termo melhor...